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Resenha: Evangelho de Sangue, de Clive Barker

Bwa-ha-ha! Hoje é Halloween, dia de travessuras, de sustos e reprises de filmes trash na TV aberta. Dia propício para prestar tributo ao horror e – por quê não? – àqueles que moldaram o estilo como o conhecemos.

Assim, como prometido, vamos falar aqui do último trabalho do cultuado Clive Barker, Evangelho de Sangue (The Scarlet Gospels), lançado no Brasil pela Darkside Books em julho deste ano.

Começando pelo design, de imediato o livro impressiona pela qualidade do material que temos em mãos: capa dura, fitinha pra marcar página, papel de boa gramatura, arte de capa absurda e simbólica… tudo parece ter sido pensado para fazer com que o volume se destaque em qualquer coleção, puxando o gatilho da curiosidade de quem quer que pouse o olhar sobre ele. Méritos da Darkside, que consegue manter um padrão de excelência altíssimo no mercado nacional a cada lançamento.

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Mas não é só a embalagem que merece atenção. O conteúdo também é digno de nota, mesclando as perversidades típicas de Barker com uma história que transita e que une as mitologias de duas das principais crias do autor: o detetive do oculto, Harry D’Amour, e o Sacerdote do Inferno em pessoa, o Cenobita Pinhead (sim, o maluco com os pregos na cara que já tem lugar cativo no imaginário popular).

Na trama, o Sacerdote do Inferno chacinou os magos mais proeminentes da Terra e obteve conhecimento arcano suficiente para arquitetar profundas mudanças na forma como Céu e Inferno lidam com seus próprios assuntos. E a cena de abertura do livro atesta que não há quaisquer entraves morais para que o Cabeça de Prego consiga aquilo que deseja, chocando pela violência gráfica ali descrita e pela total falta de escrúpulos do Cenobita.

Porém, em meio ao caos que se pronuncia, Harry D’Amour acaba interferindo na cruzada do Sacerdote do Inferno e se vê diante de um conflito além da sua compreensão. A coisa piora de vez quando uma amiga do detetive é sequestrada pelo seu algoz, forçando Harry e uma trupe de amigos a empreender uma viagem até os rincões do Inferno, onde terão que desafiar os intentos megalomaníacos de Pinhead.

Durante a leitura, fica óbvio as qualidades da narrativa de Barker, com suas descrições vívidas e escrita fluída, cada página contribuindo para a construção dos cenários e dos mistérios que marcam a história. Porém, é preciso fazer um comentário sobre o estilo do livro: Evangelho de Sangue pende mais para a fantasia que para o horror, o que pode decepcionar os leitores ávidos pela depravação que marca a bibliografia do autor. Não que ela não esteja presente…. ela só está mais contida, destilada em conta-gotas, sobretudo no início da obra e em outras passagens mais oníricas (a cena do monstro da banheira é sensacional!).

Outro elemento que talvez incomode alguns seja a falta de profundidade de alguns coadjuvantes que acompanham a jornada de D’Amour. Apesar de interessantes, essas personagens carecem, em muitos momentos, de uma motivação real que gere empatia, que faça com que nos importemos com o que pode acontecer aos amigos do detetive. Não sei se essa impressão é uma birra particular minha ou se foi ocasionada por cortes de edição, mas é fato que isso poderia ser melhor executado na versão final do texto.

O adesivo na capa, dizendo que se trata da “Origem de Hellraiser”, também não faz o menor sentido, vendendo uma ideia errada sobre a obra, que caminha mais para a conclusão da história do Sacerdote do Inferno do que propriamente o recontar das suas origens. Ademais, existem alguns errinhos de digitação aqui e acolá, mas nada que prejudique a leitura ou a experiência proposta pelo texto.

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Agora, apesar desses problemas, cabe dizer que Evangelho de Sangue é um legítimo trabalho com a marca de Clive Barker, que deve agradar fãs e leitores em busca de uma história provocativa, tendo como maior mérito a consolidação das mitologias construídas pelo autor, mesmo quando imersa numa roupagem mais aventuresca e fantástica.

Afinal, trata-se da liturgia de um monstro, um título capaz de conferir uma boa dose de inquietudes e pesadelos. E nada poderia ser mais apropriado para um Dia das Bruxas, não é mesmo? 😉

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Leonardo Alegre
Tecnólogo, nerd, colecionador assíduo, amante das artes e artista amador. Já quis ser desenhista, bruxo, astronauta e cientista maluco. Faz parte do Grupo Além do Muro, escreve e gosta de bater um papo cabeça sempre que tem a chance =)

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